quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Cobrador


Investigador Miro trouxe a mulher à minha presença.
Foi o marido, disse Miro, desinteressado. Naquela delegacia de subúrbio era comum briga de marido e mulher.
Ela estava com dois dentes partidos na frente, os lábios feridos, o rosto inchado. Marcas nos braços e no pescoço.
Foi o seu marido que fez isso?, perguntei.
Não foi por mal, doutor, eu não quero dar queixa.
Então por que a senhora veio aqui?
Na hora eu fiquei com raiva, mas já passou. Posso ir embora? Não.
Miro suspirou. Deixa a mulher ir embora, disse ele entre dentes.
A senhora sofreu lesões corporais, é um crime de ação pública, independe da sua queixa. Vou enviá-la a exame de corpo delito, eu disse.
Ubiratan é nervoso mas não é má pessoa, ela disse. Por favor, não faz nada com ele.
Eles moravam perto. Decidi ir falar com Ubiratan. Uma vez, em Madureira, eu havia convencido um sujeito a não bater mais na mulher; outros dois, quando trabalhei na Delegacia de Jacarepaguá, também haviam sido persuadidos a tratar a mulher com decência.
Um homem alto e musculoso abriu a porta. Estava de calção, sem camisa. Num canto da sala havia uma barra de aço com pesadas anilhas de ferro e dois halteres pintados de vermelho. Ele devia estar fazendo exercícios quando cheguei. Seus músculos estavam inchados e cobertos por grossa camada de suor. Ele exalava a força espiritual e o orgulho que uma boa saúde e um corpo cheio de músculos dão a certos homens.
Sou da Delegacia, eu disse.
Ah, então ela foi mesmo dar queixa, a idiota, Ubiratan resmungou. Abriu a geladeira, tirou uma lata de cerveja, destampou e começou a beber.
Vai e diz para ela voltar logo para casa senão vai ter.
Acho que você ainda não percebeu o que vim fazer aqui. Vim convidá-lo para depor na Delegacia.
Ubiratan atirou a lata vazia pela janela, pegou a barra de ato e levantou-a sobre a cabeça dez vezes, respirando ruidosamente pela boca, como se fosse uma locomotiva.
Você acha que eu tenho medo da polícia?, ele perguntou, olhando com admiração e carinho os músculos do peito e dos braços.
Não é preciso ter medo. Você vai lá apenas para depor. Ubiratan pegou meu braço e me sacudiu.
Cai fora, tira nojento, você está me irritando.
Tirei o revólver do coldre. Posso processá-lo por desacato, mas não vou fazer isso. Não complique as coisas, venha comigo à Delegacia, em meia hora estará livre, eu disse, calmamente e com delicadeza.
Ubiratan riu. Qual é tua altura, anãozinho?
Um metro e setenta. Vamos embora.
Vou tirar essa merda da sua mão e mijar no cano, anãozinho. Ubiratan contraiu todos os músculos do corpo, como um animal se arrepiando para assustar o outro, e estendeu o braço, a mão aberta para agarrar o meu revólver. Atirei na sua coxa. Ele me olhou atônito.
Olha o que você fez com o meu sartório!, Ubiratan gritou mostrando a própria coxa, você é maluco, o meu sartório!
Sinto muito, eu disse, agora vamos embora senão atiro na outra perna.
Pra onde você vai me levar, anãozinho?
Primeiro para o hospital, depois para a Delegacia.
Isso não vai ficar assim, anãozinho, tenho amigos influentes.
O sangue escorria pela sua perna, pingava no assoalho do carro. Desgraçado, o meu sartório! Sua voz era mais estridente do que a sirene que abria nosso caminho pelas ruas.

2.

Manhã quente de dezembro, rua São Clemente. Um ônibus atropelou um menino de dez anos. As rodas do veículo passaram sobre a sua cabeça deixando um rastro de massa encefálica de alguns metros. Ao lado do corpo uma bicicleta nova, sem um arranhão.
Um guarda de trânsito prendeu em flagrante o motorista. Duas testemunhas afirmaram que o ônibus vinha em grande velocidade. O local do acidente foi isolado cuidadosamente.
Uma velha, mal vestida, com uma vela acesa na mão, queria atravessar o cordão de isolamento, "para salvar a alma do anjinho". Foi impedida. Com os outros espectadores, ela ficou contemplando o corpo de longe. Separado, no meio da rua, o cadáver parecia ainda menor.
Ainda bem que hoje é feriado, disse um guarda, desviando o trânsito, já imaginou isso num dia comum?
Aos gritos uma mulher rompeu o cordão de isolamento e levantou o corpo do chão. Ordenei que ela o largasse. Torci seu braço, mas ela não parecia sentir dor, gemia alto, sem ceder. Eu e os guardas lutamos com ela até conseguir tirar o morto dos seus braços e colocá-lo no chão onde ele devia ficar, aguardando a perícia. Dois guardas arrastaram a mulher para longe.
Esses motoristas de ônibus são todos uns assassinos, disse o perito, ainda bem que o local está perfeito, da para fazer um laudo que nenhum rábula vai derrubar.
Fui até o carro da polícia e sentei no banco da frente, por alguns momentos. Meu paletó estava sujo de pequenos despojos do morto. Tentei limpar-me com as mãos. Chamei um dos guardas e mandei trazer o preso.
No caminho da delegacia olhei para ele. Era um homem magro, aparentando uns sessenta anos, e parecia cansado, doente e com medo. Um medo, uma doença e um cansaço antigos, que não eram apenas daquele dia.

3.

Cheguei ao sobrado na rua da Cancela e o guarda que estava na porta disse: primeiro andar. Ele está no banheiro.
Subi. Na sala uma mulher com os olhos vermelhos me olhou em silêncio. Ao seu lado um menino magro, meio encolhido, de boca aberta, respirando com dificuldade.
O banheiro? Ela me apontou um corredor escuro. A casa cheirava a mofo, como se os encanamentos estivessem vazando no interior das paredes. De algum lugar vinha um odor de cebola e alho fritos.
A porta do banheiro estava entreaberta. O homem estava lá.
Voltei para a sala. Já havia feito todas as perguntas a mulher quando o perito Azevedo chegou.
No banheiro, eu disse.
Anoitecia. Acendi a luz da sala. Azevedo me pediu ajuda. Fomos para o banheiro.
Levanta o corpo, disse o perito, para eu soltar o laço. Segurei o morto pela barriga. Da sua boca saiu um gemido.
Ar preso, disse Azevedo, esquisito não é? Rimos sem prazer. Pusemos o corpo no chão úmido. Um homem franzino, e barba por fazer, o rosto cinzento, parecia um boneco de cera.
Ele não deixou bilhete, nada, eu disse.
Eu conheço esse tipo, disse Azevedo, quando não agüentam mais eles se matam depressa, tem que ser depressa senão se arrependem.
Azevedo urinou no vaso sanitário. Depois lavou as mãos na pia e enxugou-as nas fraldas de sua camisa.

Conto extraído do livro "O Cobrador", Ed. Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1979, pág.127


Camilla da Silva Costa, n° 5

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Rubem Fonseca uma nova corrente na literatura brasileira contemporânea que ficou conhecida ,em 1975 através de Alfredo Bosi ,como brutalista . Em seus contos e romances utiliza-se de uma maneira  de narra na qual destacam-se personagens que são ao mesmo tempo narradores.Várias das suas histórias (em especial, os   romances)são apresentadas sob a estrutura de uma narrativa policial, com fortes elementos de oralidade.O fato de ter atuado como advogado,aprendido medicina legal,bem como ter sido comissário de polícia ,nos anos 50 no subúrbio do Rio de Janeiro teria contribuído para o escritor compor histórias do submundo dentro dessa linguagem direta.Muito provavelmente devido a isso,vários dos personagens principais em sua obra são(ou foram)
delegados,inspetores,detetives particulares ,advogados criminalistas,ou,ainda  ,escritores.
Além do tom nitidamente policialesco ,em que há geralmente um crime ou um mistério a ser desvendado ,sua obra pode ser vista como uma paródia do gênero policial tradicional,visto que os crimes,atuam apenas como um disfarce de sua críticas a uma sociedade opressora do indivíduo .No gênero policial tradicional o mistério funciona como uma casca que encerra um caroço ;ali a "morte não é nada.O assassinato não é nada .O que transtorna é a selvageria do crime ,porque ela parece inexplicável ".(BOILEAU e NARCEJAC ,1991:11)A Rubem Fonseca -mais do que simplesmente deslindar o ato criminoso - interessa registrar o cotidiano terrível das grandes cidades e, simultaneamente ,por a nu os dramas humanos desencadeados pelas ações transgressoras da ordem .
Rubem Fonseca é pródigo em deixar as coisas para o leitor completar .Ao escrever ,o autor deve supor um interlocutor inteligente ,culto,atento.Com uma inesgotável  amplitude de experiências e observações ,tornou-se capaz de escrever com a mesma verosimilhança sobre halterofilistas e executivos,marginais e financistas,delegados de polícia e assassinos profissionais ,garotas de programa e pobres diabos sem destino pelas ruas do Rio de Janeiro .Tem,pois, como matéria-prima os dois extremos da nação : os que vivem a margem do sistema e os que constituem o núcleo privilegiado do mesmo.
O que mais nos romances e contos de Rubem Fonseca é o amoralismo dos bandidos .Em nenhum momento eles são atormentados por qualquer remorso ou culpa .São perversos e frios ,venham dos estratos superiores ou das camadas populares .As cidades parecem vazias de inquietação ética , a não ser alguns indivíduos que, em meio ao horror ,agem movidos por um sentimento qualquer de justiça .A relação entre "mocinho" e "bandido" está presente em suas obras ,contudo não nos é possível identificar exatamente quem é um e quem é o outro ,pois há uma grande transitividade entre ambos fazendo com que ,por exemplo,Wexler suponha que o criminoso em A grande arte seja ,até mesmo o próprio Mandrake ":Pode ter sido qualquer pessoa .Pode ter sido você ,Mandrake".(FOnseca 1983:296).
Rubem Fonseca é extremamente reservado ,avesso a entrevistas e fotos.Já recebeu vários prêmios ,incluindo alguns ligados ao cinema ,área em trabalhou como roteirista.

Dirceu Neto n°7

"Neste momento estou desenvolvendo o começo da história que iniciei com o título que lhe deu o sopro inicial de vida. No quiosque de livros da praça li um poema no qual o autor (roubei dele o título da minha história) diz que o mundo é doloroso, os seres humanos não merecem existir e ele, poeta, suspeita que a crueldade da sua imaginação está de certa forma conectada com seus impulsos criativos. Matar a velha, não a crueldade, como disse o poeta, mas a força do meu ato e não apenas da minha imaginação foi a impulsão que fará de mim um verdadeiro escritor. Tenho, agora, o começo, tenho o meio e o fim." (Pequenas criaturas - "Começo")

LIVROS PUBLICADOS NO BRASIL:

-Os prisioneiros (contos, 1963),
-A coleira do cão (contos, 1965)
-Lúcia McCartney (contos, 1967)
-O caso Morel (romance, 1973)
-Feliz Ano Novo (contos, 1975)
-O homem de fevereiro ou março (antologia, 1973)
-O cobrador (contos, 1979)
-A grande arte (romance, 1983)
-Bufo & Spallanzani (romance, 1986)
-Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (romance, 1988)
-Agosto (romance, 1990)
-Romance negro e outras histórias (contos, 1992)
-O selvagem da ópera (romance, 1994)
-Contos reunidos (contos, 1994)
-O Buraco na parede (contos, 1995)
-Romance negro, Feliz ano novo e outras histórias, Editora Ediouro, Rio de Janeiro, 1996.
-Histórias de Amor (contos, 1997)
-Do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto (novela, 1997)
-Confraria dos Espadas (contos, 1998)
-O doente Molière (novela, 2000)
-Secreções, excreções e desatinos (contos, 2001)
-Pequenas criaturas (contos, 2002)
-Diário de um Fescenino (contos, 2003)
-64 Contos de Rubem Fonseca (contos,2004)
-Ela e outras mulheres (contos, 2006)
-O romance morreu (crônicas, 2007)



Luiza.P.Faza n°23

História




Nascido em Juiz de Fora , Minas Gerais , em 11 de maio de 1925 , José Rubem Fonseca é formado em Direito , tendo exercido várias atividades antes de dedicar-se inteiramente à literatura. Em 31 de dezembro de 1952 iniciou sua carreira na polícia , como comissário , no 16° Distrito Policial , em São Cristóvão , no Rio de Janeiro. Muitos dos fatos vividos naquela época e dos seus companheiros de trabalho estão imortalizados em seus livros. Aluno brilhante da Escola de Polícia , não demonstrava , então , pendores literários. Ficou pouco tempo nas ruas. Foi , na maior parte do tempo em que trabalhou , até ser exonerado em 06 de fevereiro de 1958 , um policial de gabinete. Cuidava do serviço de relações públicas da polícia . Em julho de 1954 recebeu uma licença para estudar e depois dar aulas sobre esse assunto na Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Na Escola de Polícia destacou-se em Psicologia. Contemporâneos de Rubem Fonseca dizem que, naquela época, os policiais eram mais juízes de paz, apartadores de briga, do que autoridades. Zé Rubem via, debaixo das definições legais, as tragédias humanas e conseguia resolvê-las. Nesse aspecto, afirmam, ele era admirável. Escolhido, com mais nove policiais cariocas, para se aperfeiçoar nos Estados Unidos, entre setembro de 1953 e março de 1954, aproveitou a oportunidade para estudar administração de empresas na New York University. Após sair da polícia, Rubem Fonseca trabalhou na Light até se dedicar integralmente à literatura. É viúvo e tem três filhos.

Gabriel Marques. 13